sábado, 8 de maio de 2010

Esta manhã

Arrasto-me pela cama. Levanto.
Devasta-me bela dama. Que encanto!
E basta, ela me inflama de um tanto.

Repousa indefesa em mar de ilusão

Que veloz inunda o sono profundo.
Venha a mim, correnteza sem razão,
Traga consigo toda água do mundo.
E, quando embebido, paro a visão,
Dê a eternidade e mais cada segundo.

Desperta, íris suga todo o banho

E logo me desarma o olhar que ganho;
Esqueço-me que penso em pensamentos.
Brisa interna que tira meus tormentos,
Temos de aproveitar nossos momentos.

Arrasta-me bela dama. Espanto.

Devasta-me pela cama, sem manto.
Desgasta-me tê-la, flama. É tanto.

terça-feira, 30 de março de 2010

Inundação

Transbordas por tua boca a sombra interna,
Musa guardiã do pântano-mundo,
E, aos poucos, tua beleza ora eterna,
Escorre pelo rio ao mar profundo.

Esconde o rosto, que já estão à mostra os teus ossos.
Sente o gosto, os homens irão ver quem tu és.
Faça o oposto, fuja e inunde os terrenos nossos.
Guarde o exposto, e retorne contra as marés.

Salva-te a ingenuidade,
Viúva de minha mente.
Sofre a pobre humanidade
De um pesadelo frequente.

Amplitude,
Imensidão.
Quietude
E solidão.

Assombra, sombra duma musa morta,
Nenhuma das nossas ilhas se importa.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Auto-reclusão

Passarinho meu, passarinho ateu,
Voa livre, preso em minha gaiola;
Canta, sei que amas o cantinho teu.

Podes ver verde grama a tua volta?
Tal harmonia não te fará bem,
Necessitas tanto de minha escolta.

Passarinho, passarinho num breu,
Encha de músicas lindas meu ouvido
E não penses no que te apareceu.

Um outro passarinho voa longe,
Somente o horizonte é sua gaiola.
O teu destino é reclusão de monge -
Nunca decoles – pois nunca decola!

terça-feira, 2 de março de 2010

Impaciente

Julgo o julgamento como perverso,
Vê o casco e diz saber de meu profundo
Sem saber ao menos no que está imerso,
Sem saber ao menos do próprio mundo.

Senhores de si mesmos e de tudo,
Segurem suas verdades exaltantes,
Não mais me desespero, fico mudo.
Eu nunca fora tão forte assim antes!

Eu nunca me preocupara tanto,
Tenho a fraqueza de sentir-me forte,
Escondido debaixo de meu manto.
Como me dói, prefiro longa morte.

Sorte. É mentira contada a mim.
Vejam, essa confusão me domina!
Como podem olhar meu ser assim?
Ah! Como tal burrice me alucina.

sábado, 30 de janeiro de 2010

O cristão

O meu velho pai escreveu em seu diário:
“Matar não é errado, é mais um instinto.”
Suas palavras me deram salário,
Pois me tornei um assassino faminto.

Numa emboscada, enfim fui rendido:
“Estás preso pela sua enorme ira,
O que fazes é contra a lei, bandido.”
Nunca ouvira antes tão cega mentira.

O padre a minha alma veio salvar:
“Pedes o perdão pelo teu pecado?
Assassino, indigno do altar.”
Eu sigo a bíblia de meu pai tão amado.

E minha mãe veio me excomungar:
“Não és mais filho de quem agora te olhas,
Pecador, não te ensinei meu louvar?”
Sou tão fiel quanto ti, sigo histórias.